“O meu coração começou a bater muito depressa.”
“Não conseguia respirar.”
“Pensei que ia morrer.”
“Sentia que estava a perder o controlo.”
“Não percebia o que estava a acontecer comigo.”
“Tenho medo de voltar a sentir aquilo.”
Um ataque de pânico pode surgir de forma súbita e provocar uma sensação intensa de medo ou desconforto. Para algumas pessoas, o medo de voltar a experienciar um ataque passa a fazer parte do seu dia a dia. É neste contexto que pode surgir a Perturbação de Pânico.
O que é a Perturbação de Pânico?
A Perturbação de Pânico caracteriza-se pela ocorrência de ataques de pânico recorrentes e inesperados, acompanhados por preocupação persistente relativamente à possibilidade de novos ataques ou às suas consequências, e/ou por alterações significativas no comportamento relacionadas com os ataques (American Psychiatric Association, 2022).
Um ataque de pânico corresponde a um período de medo ou desconforto intenso que surge de forma abrupta e atinge habitualmente o seu pico em poucos minutos. Durante um ataque, podem surgir sintomas físicos e psicológicos intensos. É importante, contudo, distinguir um ataque de pânico isolado de uma Perturbação de Pânico. Uma pessoa pode experienciar um ataque de pânico sem desenvolver uma perturbação.
O diagnóstico depende da frequência e natureza dos ataques, da preocupação subsequente e do impacto na vida da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).
O que acontece durante um ataque de pânico?
Os ataques de pânico podem incluir diferentes sintomas, como:
- palpitações ou aceleração do ritmo cardíaco;
- transpiração;
- tremores;
- sensação de falta de ar ou dificuldade em respirar;
- sensação de sufoco;
- dor ou desconforto no peito;
- náuseas ou desconforto abdominal;
- tonturas ou sensação de instabilidade;
- sensação de irrealidade;
- sensação de estar desligado de si próprio;
- medo de perder o controlo;
- medo de morrer.
Nem todas as pessoas experienciam os mesmos sintomas e a intensidade pode variar (American Psychiatric Association, 2022). O que torna a experiência particularmente assustadora é que os sintomas físicos podem ser muito intensos.
Porque é que um ataque de pânico parece tão perigoso?
O nosso corpo possui um sistema de alarme que nos prepara para responder perante uma ameaça. Quando este sistema é ativado, podem ocorrer alterações no ritmo cardíaco, respiração, tensão muscular, atenção e outras respostas fisiológicas. Estas respostas são úteis quando existe um perigo real.
Num ataque de pânico, porém, esta resposta pode ser ativada mesmo quando não existe uma ameaça externa imediata. O problema é que as próprias sensações corporais podem ser interpretadas como sinais de perigo.
Pode formar-se um ciclo de medo das próprias sensações de medo (Clark, 1986).
E se o ataque passar?
Os ataques de pânico podem ser muito intensos, mas normalmente atingem o seu pico rapidamente e depois diminuem. Mesmo quando a intensidade começa a baixar, a experiência pode deixar uma marca.
“E se voltar a acontecer?”
“E se acontecer quando estiver sozinho?”
“E se acontecer no trabalho?”
“E se não conseguir fugir?”
Assim, o medo deixa de estar apenas associado ao ataque. Passa a estar associado à possibilidade de ter outro ataque.
O medo do próximo ataque
Depois de um ataque inesperado, é natural ficar mais atento às sensações do corpo.
“O meu coração está normal?”
“Estou a respirar bem?”
“Estou a ficar tonto?”
“Será que estou a começar a sentir alguma coisa?”
Quanto mais atenção damos às sensações corporais, mais facilmente podemos detetar pequenas alterações que normalmente passariam despercebidas. Uma aceleração normal do coração pode tornar-se motivo de preocupação. Uma tontura momentânea pode ser interpretada como um sinal de perigo. E a própria preocupação pode aumentar as sensações físicas.
E se começar a evitar situações?
O medo de voltar a ter um ataque pode levar a pessoa a evitar determinadas situações. Pode deixar de:
- andar de transportes;
- conduzir;
- viajar;
- estar em espaços fechados;
- frequentar centros comerciais;
- estar em locais com muitas pessoas;
- fazer exercício;
- sair sozinho;
- afastar-se de casa.
Inicialmente, o evitamento pode trazer alívio. Mas este alívio pode reforçar o evitamento. A pessoa pode aprender, sem se aperceber: “Só estou seguro quando evito esta situação.”
E, progressivamente, o número de situações evitadas pode aumentar.
A Perturbação de Pânico é a mesma coisa que Agorafobia?
São condições diferentes, embora possam ocorrer em conjunto.
Na Perturbação de Pânico, o foco central está nos ataques de pânico recorrentes e no medo ou preocupação associados a esses ataques.
Na Agorafobia, existe um medo ou ansiedade significativo perante determinadas situações em que a pessoa receia que possa ser difícil escapar ou obter ajuda caso desenvolva sintomas incapacitantes ou semelhantes ao pânico (American Psychiatric Association, 2022).
Por exemplo, a pessoa pode sentir medo de:
- utilizar transportes públicos;
- estar em espaços abertos;
- estar em espaços fechados;
- permanecer numa fila;
- estar no meio de uma multidão;
- sair de casa sozinha.
Uma pessoa pode ter Perturbação de Pânico sem ter agorafobia e pode também existir agorafobia sem Perturbação de Pânico.
É possível tratar a Perturbação de Pânico?
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas com maior suporte científico para a Perturbação de Pânico (NICE, 2011; Pompoli et al., 2016).
A intervenção pode incluir diferentes componentes, como:
- compreensão do ciclo do pânico;
- identificação de interpretações catastróficas;
- trabalho sobre o medo das sensações corporais;
- exposição a situações evitadas;
- exposição interoceptiva, quando indicada;
- redução de comportamentos de segurança;
- desenvolvimento de respostas mais flexíveis perante as sensações de ansiedade.
O tratamento é individualizado e deve ser adaptado às necessidades de cada pessoa.
Quando procurar ajuda?
Pode ser importante procurar apoio psicológico quando:
- tem ataques de pânico recorrentes;
- vive com medo constante de ter outro ataque;
- está constantemente a monitorizar o seu corpo;
- evita situações por receio de ter um ataque;
- sente que a ansiedade está a limitar cada vez mais a sua vida;
- ou passa grande parte do tempo preocupado com a possibilidade de algo acontecer.
Quanto mais cedo forem identificados os ciclos de medo, evitamento e comportamentos de segurança, maior pode ser a possibilidade de intervir sobre eles.
Acompanhamento individualizado
O medo de ter outro ataque está a limitar o seu dia a dia?
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
- Barlow, D. H., & Craske, M. G. (2007). Mastery of your anxiety and panic: Therapist guide (4th ed.). Oxford University Press.
- Clark, D. M. (1986). A cognitive approach to panic. Behaviour Research and Therapy, 24(4), 461–470. https://doi.org/10.1016/0005-7967(86)90011-2
- National Institute for Health and Care Excellence. (2011). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). NICE.
- Pompoli, A., Furukawa, T. A., Imai, H., Tajika, A., Efthimiou, O., & Salanti, G. (2016). Psychological therapies for panic disorder with or without agoraphobia in adults: a network meta-analysis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016(4), CD011004. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011004.pub2