Psicologia · Pânico

Perturbação de Pânico

“E se alguma coisa correr mal?”

Mónica Bexiga
Autora do artigo Mónica Bexiga Psicóloga Clínica

“O meu coração começou a bater muito depressa.”

“Não conseguia respirar.”

“Pensei que ia morrer.”

“Sentia que estava a perder o controlo.”

“Não percebia o que estava a acontecer comigo.”

“Tenho medo de voltar a sentir aquilo.”

Um ataque de pânico pode surgir de forma súbita e provocar uma sensação intensa de medo ou desconforto. Para algumas pessoas, o medo de voltar a experienciar um ataque passa a fazer parte do seu dia a dia. É neste contexto que pode surgir a Perturbação de Pânico.

O que é a Perturbação de Pânico?

A Perturbação de Pânico caracteriza-se pela ocorrência de ataques de pânico recorrentes e inesperados, acompanhados por preocupação persistente relativamente à possibilidade de novos ataques ou às suas consequências, e/ou por alterações significativas no comportamento relacionadas com os ataques (American Psychiatric Association, 2022).

Um ataque de pânico corresponde a um período de medo ou desconforto intenso que surge de forma abrupta e atinge habitualmente o seu pico em poucos minutos. Durante um ataque, podem surgir sintomas físicos e psicológicos intensos. É importante, contudo, distinguir um ataque de pânico isolado de uma Perturbação de Pânico. Uma pessoa pode experienciar um ataque de pânico sem desenvolver uma perturbação.

O diagnóstico depende da frequência e natureza dos ataques, da preocupação subsequente e do impacto na vida da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).

O que acontece durante um ataque de pânico?

Os ataques de pânico podem incluir diferentes sintomas, como:

  • palpitações ou aceleração do ritmo cardíaco;
  • transpiração;
  • tremores;
  • sensação de falta de ar ou dificuldade em respirar;
  • sensação de sufoco;
  • dor ou desconforto no peito;
  • náuseas ou desconforto abdominal;
  • tonturas ou sensação de instabilidade;
  • sensação de irrealidade;
  • sensação de estar desligado de si próprio;
  • medo de perder o controlo;
  • medo de morrer.

Nem todas as pessoas experienciam os mesmos sintomas e a intensidade pode variar (American Psychiatric Association, 2022). O que torna a experiência particularmente assustadora é que os sintomas físicos podem ser muito intensos.

Porque é que um ataque de pânico parece tão perigoso?

O nosso corpo possui um sistema de alarme que nos prepara para responder perante uma ameaça. Quando este sistema é ativado, podem ocorrer alterações no ritmo cardíaco, respiração, tensão muscular, atenção e outras respostas fisiológicas. Estas respostas são úteis quando existe um perigo real.

Num ataque de pânico, porém, esta resposta pode ser ativada mesmo quando não existe uma ameaça externa imediata. O problema é que as próprias sensações corporais podem ser interpretadas como sinais de perigo.

“O meu coração está a bater muito depressa.”
↓
“Alguma coisa está errada.”
↓
“Posso estar a ter um problema grave.”
↓
“Estou em perigo.”
↓
Mais medo e ativação física

Pode formar-se um ciclo de medo das próprias sensações de medo (Clark, 1986).

E se o ataque passar?

Os ataques de pânico podem ser muito intensos, mas normalmente atingem o seu pico rapidamente e depois diminuem. Mesmo quando a intensidade começa a baixar, a experiência pode deixar uma marca.

“E se voltar a acontecer?”

“E se acontecer quando estiver sozinho?”

“E se acontecer no trabalho?”

“E se não conseguir fugir?”

Assim, o medo deixa de estar apenas associado ao ataque. Passa a estar associado à possibilidade de ter outro ataque.

O medo do próximo ataque

Depois de um ataque inesperado, é natural ficar mais atento às sensações do corpo.

“O meu coração está normal?”

“Estou a respirar bem?”

“Estou a ficar tonto?”

“Será que estou a começar a sentir alguma coisa?”

Quanto mais atenção damos às sensações corporais, mais facilmente podemos detetar pequenas alterações que normalmente passariam despercebidas. Uma aceleração normal do coração pode tornar-se motivo de preocupação. Uma tontura momentânea pode ser interpretada como um sinal de perigo. E a própria preocupação pode aumentar as sensações físicas.

E se começar a evitar situações?

O medo de voltar a ter um ataque pode levar a pessoa a evitar determinadas situações. Pode deixar de:

  • andar de transportes;
  • conduzir;
  • viajar;
  • estar em espaços fechados;
  • frequentar centros comerciais;
  • estar em locais com muitas pessoas;
  • fazer exercício;
  • sair sozinho;
  • afastar-se de casa.

Inicialmente, o evitamento pode trazer alívio. Mas este alívio pode reforçar o evitamento. A pessoa pode aprender, sem se aperceber: “Só estou seguro quando evito esta situação.”

E, progressivamente, o número de situações evitadas pode aumentar.

A Perturbação de Pânico é a mesma coisa que Agorafobia?

São condições diferentes, embora possam ocorrer em conjunto.

Na Perturbação de Pânico, o foco central está nos ataques de pânico recorrentes e no medo ou preocupação associados a esses ataques.

Na Agorafobia, existe um medo ou ansiedade significativo perante determinadas situações em que a pessoa receia que possa ser difícil escapar ou obter ajuda caso desenvolva sintomas incapacitantes ou semelhantes ao pânico (American Psychiatric Association, 2022).

Por exemplo, a pessoa pode sentir medo de:

  • utilizar transportes públicos;
  • estar em espaços abertos;
  • estar em espaços fechados;
  • permanecer numa fila;
  • estar no meio de uma multidão;
  • sair de casa sozinha.

Uma pessoa pode ter Perturbação de Pânico sem ter agorafobia e pode também existir agorafobia sem Perturbação de Pânico.

É possível tratar a Perturbação de Pânico?

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas com maior suporte científico para a Perturbação de Pânico (NICE, 2011; Pompoli et al., 2016).

A intervenção pode incluir diferentes componentes, como:

  • compreensão do ciclo do pânico;
  • identificação de interpretações catastróficas;
  • trabalho sobre o medo das sensações corporais;
  • exposição a situações evitadas;
  • exposição interoceptiva, quando indicada;
  • redução de comportamentos de segurança;
  • desenvolvimento de respostas mais flexíveis perante as sensações de ansiedade.

O tratamento é individualizado e deve ser adaptado às necessidades de cada pessoa.

Quando procurar ajuda?

Pode ser importante procurar apoio psicológico quando:

  • tem ataques de pânico recorrentes;
  • vive com medo constante de ter outro ataque;
  • está constantemente a monitorizar o seu corpo;
  • evita situações por receio de ter um ataque;
  • sente que a ansiedade está a limitar cada vez mais a sua vida;
  • ou passa grande parte do tempo preocupado com a possibilidade de algo acontecer.

Quanto mais cedo forem identificados os ciclos de medo, evitamento e comportamentos de segurança, maior pode ser a possibilidade de intervir sobre eles.

Acompanhamento individualizado

O medo de ter outro ataque está a limitar o seu dia a dia?

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Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • Barlow, D. H., & Craske, M. G. (2007). Mastery of your anxiety and panic: Therapist guide (4th ed.). Oxford University Press.
  • Clark, D. M. (1986). A cognitive approach to panic. Behaviour Research and Therapy, 24(4), 461–470. https://doi.org/10.1016/0005-7967(86)90011-2
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2011). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). NICE.
  • Pompoli, A., Furukawa, T. A., Imai, H., Tajika, A., Efthimiou, O., & Salanti, G. (2016). Psychological therapies for panic disorder with or without agoraphobia in adults: a network meta-analysis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016(4), CD011004. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011004.pub2