Psicologia · Autismo

Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) no adulto

“E se sempre se sentiu diferente e nunca percebeu porquê?”

Madalena Gama Fernandes
Autora do artigo Madalena Gama Fernandes Psicóloga Clínica

“Sente que passa grande parte do tempo a tentar perceber as regras sociais?”

“Faz um enorme esforço para parecer natural nas interações, mas termina o dia completamente exausto?”

“Necessita de rotina, previsibilidade e sente-se desconfortável quando os planos mudam inesperadamente?”

“Ao longo da vida disseram-lhe que era demasiado sensível, reservado, meticuloso ou que pensava de forma diferente?”

“Em contextos sociais, sente grande ansiedade por não conseguir colocar temas de conversa, mas com muita vontade de fazer parte de um grupo?”

Se se identificou com algumas destas situações, saiba que não está sozinho. Em alguns casos, estas características podem estar relacionadas com a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA).

O que é a Perturbação do Espetro do Autismo?

De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), a Perturbação do Espetro do Autismo é uma perturbação do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação e interação social, bem como por padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades (American Psychiatric Association, 2022).

Porque se chama “Espetro”?

A palavra “espetro” significa diversidade.

Não existem duas pessoas autistas iguais. Cada pessoa apresenta um conjunto único de características, capacidades, desafios e necessidades, dando origem ao seu perfil individualizado (APA, 2022; Lord et al., 2020).

É precisamente esta diversidade que explica porque o autismo pode manifestar-se de formas muito diferentes de pessoa para pessoa.

Porque é que muitas pessoas apenas recebem o diagnóstico na idade adulta?

Durante muitos anos acreditou-se que o autismo apresentava sempre características muito evidentes.

Hoje sabemos que muitas pessoas, especialmente aquelas com menores necessidades de apoio (Nível 1 de suporte), aprendem ao longo da vida estratégias para se adaptarem às exigências sociais (NICE, 2021; Hull et al., 2017).

Como consequência, o diagnóstico pode surgir apenas na adolescência ou na idade adulta. As dificuldades nem sempre são visíveis, muitas pessoas autistas recorrem ao chamado masking.

O que é o masking?

Um conjunto de estratégias utilizadas para esconder ou compensar as suas dificuldades sociais (Hull et al., 2017).

Estas estratégias podem incluir:

  • Observar cuidadosamente o comportamento dos outros
  • Imitar expressões faciais e linguagem corporal
  • Ensaiar conversas antes de situações sociais
  • Esconder comportamentos naturais para evitar julgamentos.

Embora estas estratégias possam facilitar a adaptação social, exigem um enorme esforço e podem provocar ansiedade, stress, fadiga emocional e uma sensação persistente de nunca conseguir ser verdadeiramente autêntico (Hull et al., 2017; Livingston et al., 2019).

O cérebro processa a informação de forma diferente

O funcionamento cerebral de uma pessoa autista pode influenciar diferentes áreas da vida diária, nomeadamente:

  • Comunicação
  • Interação social
  • Flexibilidade perante mudanças
  • Processamento sensorial
  • Organização da informação
  • Gestão de pensamento
  • Forma de interpretar o mundo

Estas diferenças não representam falta de capacidade. Representam apenas uma forma diferente de processar a informação.

O processamento sensorial

Os sentidos podem funcionar de forma diferente.

Para algumas pessoas, um determinado som é apenas um ruído, para outras, esse mesmo som pode ser extremamente intenso e desconfortável.

O mesmo pode acontecer com:

  • Luzes
  • Cheiros
  • Texturas
  • Temperaturas
  • Sabores
  • Determinados alimentos

Esta forma diferente de processar os estímulos chama-se diferença no processamento sensorial e faz parte da experiência de muitas pessoas autistas (APA, 2022; Robertson & Baron-Cohen, 2017).

A rotina traz segurança

A previsibilidade transmite segurança.

Saber antecipadamente o que vai acontecer ajuda muitas pessoas autistas a sentirem-se mais tranquilas e a reduzir a ansiedade, pela previsibilidade do detalhe e preparação para o momento. Por esse motivo, mudanças inesperadas de planos, horários ou ambientes podem provocar desconforto e exigir um maior esforço de adaptação (APA, 2022; NICE, 2021).

Comunicar de forma diferente

Algumas preferem conversas objetivas, outras necessitam de mais tempo para responder, algumas expressam-se melhor por escrito. A comunicação existe, apenas pode acontecer de forma diferente.

Interpretar os sinais sociais pode exigir mais esforço:

  • Ironia
  • Metáforas
  • Sarcasmo
  • Expressões faciais
  • Duplos sentidos

Todas estas formas de comunicação podem ser mais difíceis de interpretar, sobretudo porque muitas pessoas autistas tendem a privilegiar uma interpretação mais literal e objetiva da linguagem (APA, 2022).

As emoções existem, apenas podem ser expressas de forma diferente

Um dos maiores mitos sobre o autismo é acreditar que as pessoas autistas sentem menos.

Na realidade, acontece frequentemente o contrário, ou seja, a dificuldade está muitas vezes em identificar, compreender, regular ou expressar aquilo que sentem, e não na ausência de emoções (Mazefsky et al., 2013; Cai et al., 2018).

Os interesses específicos podem ser uma enorme força.

Quando um tema desperta interesse, muitas pessoas autistas desenvolvem conhecimentos extremamente aprofundados. Esta capacidade de concentração, atenção ao detalhe, memória, pensamento lógico e criatividade constitui frequentemente uma das suas maiores competências (Mottron, 2011; Baron-Cohen, 2009).

O autismo manifesta-se de forma diferente em homens e mulheres

Hoje sabemos que existem diferenças importantes na forma como a PEA se manifesta.

Nas mulheres, é frequente existir maior capacidade para esconder dificuldades sociais através do masking, o que pode atrasar significativamente o diagnóstico.

Também é comum que os interesses específicos pareçam mais socialmente aceites, tornando as características menos evidentes. Por este motivo, muitas mulheres apenas recebem um diagnóstico na idade adulta (Lai et al., 2015; Hull et al., 2017).

Para muitas pessoas, descobrir que são autistas representa um momento de grande alívio. Aquilo que durante anos foi sentido como uma diferença difícil de explicar passa finalmente a fazer sentido. A sensação de que “há qualquer coisa errada comigo” dá lugar a uma nova compreensão sobre a forma como sempre funcionaram, permitindo olhar para a própria história com maior aceitação e autocompaixão.

Mais do que um rótulo, compreender o diagnóstico é uma oportunidade para conhecer melhor as próprias necessidades, reconhecer os pontos fortes e identificar estratégias que favoreçam uma melhor qualidade de vida. Cada pessoa autista é única e, por isso, merece uma abordagem individualizada, centrada nas suas características, desafios e potencialidades.

A inclusão começa pela compreensão. Quanto mais conhecemos o autismo, mais capazes somos de respeitar a diversidade e de construir relações e contextos verdadeiramente inclusivos. Pequenas mudanças na forma como comunicamos, acolhemos e valorizamos a diferença podem ter um impacto muito significativo na vida de uma pessoa autista.

Acompanhamento psicológico

Se se identificou com algumas das características descritas ao longo deste artigo ou pretende compreender melhor o seu funcionamento, saiba que não tem de percorrer este caminho sozinho. O acompanhamento psicológico pode ajudá-lo a encontrar estratégias adaptadas às suas necessidades, promovendo uma vida mais equilibrada, autónoma e com maior qualidade de vida.

Acompanhamento individualizado

Procura compreender melhor o seu funcionamento e encontrar estratégias adaptadas às suas necessidades?

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Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • Baron-Cohen, S. (2009). Autism: The empathizing–systemizing (E-S) theory. Annals of the New York Academy of Sciences, 1156(1), 68–80. https://doi.org/10.1111/j.1749-6632.2009.04467.x
  • Cai, R. Y., Richdale, A. L., Dissanayake, C., Uljarević, M., Hedley, D., & Trollor, J. (2018). Emotion regulation in autism spectrum disorder: Where we are and where we need to go. Autism Research, 11(7), 962–978. https://doi.org/10.1002/aur.1968
  • Happé, F. G. E. (1995). Understanding minds and metaphors: Insights from the study of figurative language in autism. Metaphor and Symbolic Activity, 10(4), 275–295. https://doi.org/10.1207/s15327868ms1004_3
  • Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M.-C., & Mandy, W. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2519–2534. https://doi.org/10.1007/s10803-017-3166-5
  • Lai, M.-C., Lombardo, M. V., Auyeung, B., Chakrabarti, B., & Baron-Cohen, S. (2015). Sex/gender differences and autism: Setting the scene for future research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 54(1), 11–24. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2014.10.003
  • Livingston, L. A., Shah, P., & Happé, F. (2019). Compensatory strategies below the behavioural surface in autism: A qualitative study. The Lancet Psychiatry, 6(9), 766–777. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(19)30224-X
  • Lord, C., Brugha, T. S., Charman, T., Cusack, J., Dumas, G., Frazier, T., Jones, E. J. H., Jones, R. M., Pickles, A., State, M. W., Taylor, J. L., & Veenstra-VanderWeele, J. (2020). Autism spectrum disorder. Nature Reviews Disease Primers, 6(1), Article 5. https://doi.org/10.1038/s41572-019-0138-4
  • Mazefsky, C. A., Herrington, J., Siegel, M., Scarpa, A., Maddox, B. B., Scahill, L., & White, S. W. (2013). The role of emotion regulation in autism spectrum disorder. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 52(7), 679–688. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2013.05.006
  • Mottron, L. (2011). The power of autism. Nature, 479(7371), 33–35. https://doi.org/10.1038/479033a
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2021). Autism spectrum disorder in adults: Diagnosis and management (Clinical guideline CG142). https://www.nice.org.uk/guidance/cg142
  • Robertson, C. E., & Baron-Cohen, S. (2017). Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, 18(11), 671–684. https://doi.org/10.1038/nrn.2017.112
  • World Health Organization. (2022). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). https://icd.who.int