“E se eu não conseguir?”
“E se acontecer alguma coisa à minha família?”
“E se me esquecer de alguma coisa importante?”
Preocuparmo-nos faz parte da vida. Todos nós pensamos sobre problemas, antecipamos acontecimentos e tentamos encontrar soluções para situações que nos inquietam.
Mas, para algumas pessoas, a preocupação deixa de ser pontual e passa a ocupar grande parte do dia. Mesmo quando não existe um problema concreto, a mente parece estar constantemente à procura de algo com que se preocupar. É neste contexto que podemos encontrar a Perturbação de Ansiedade Generalizada (PAG).
O que é a Perturbação de Ansiedade Generalizada?
A Perturbação de Ansiedade Generalizada caracteriza-se por uma preocupação excessiva e persistente relativamente a diferentes áreas da vida, como o trabalho, a saúde, a família, as relações, as finanças ou situações do quotidiano.
Uma das características centrais é a dificuldade em controlar a preocupação. A pessoa pode reconhecer que está a preocupar-se demasiado, mas sentir que não consegue simplesmente “parar de pensar”.
De acordo com os critérios clínicos, estas preocupações ocorrem durante a maioria dos dias, por um período de pelo menos seis meses, e estão associadas a sintomas como inquietação, fadiga, dificuldades de concentração, irritabilidade, tensão muscular ou alterações do sono. Para além da presença dos sintomas, é importante considerar o sofrimento causado e o impacto no funcionamento da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).
Quando a preocupação deixa de ser uma preocupação “normal”?
A preocupação pode ter uma função adaptativa. Pode ajudar-nos a antecipar dificuldades ou procurar soluções para um problema. A diferença está, muitas vezes, na forma como nos relacionamos com a preocupação.
Na ansiedade generalizada, a preocupação tende a:
- surgir de forma frequente e persistente;
- abranger diferentes áreas da vida;
- ser difícil de controlar;
- continuar mesmo quando não existe uma ameaça imediata;
- levar a pessoa a procurar constantemente certezas e garantias;
- interferir com o sono, concentração, trabalho ou relações;
- provocar sofrimento significativo.
“A minha cabeça não pára”
Uma pessoa com Perturbação de Ansiedade Generalizada pode passar grande parte do dia a antecipar possíveis problemas.
Uma preocupação pode levar a outra:
A preocupação pode começar numa situação concreta e rapidamente generalizar-se para diferentes possibilidades futuras. É como se a mente estivesse permanentemente a tentar responder à pergunta: “Como posso garantir que nada de mau vai acontecer?”. O problema é que, na vida real, essa garantia absoluta não existe.
A preocupação pode dar uma falsa sensação de controlo
Por vezes, preocuparmo-nos parece uma forma de preparação.
“Se pensar em todos os cenários possíveis, estarei preparado.”
“Se antecipar tudo o que pode correr mal, consigo evitar que aconteça.”
“Se continuar a pensar no problema, talvez encontre finalmente uma solução.”
A preocupação pode mesmo transmitir temporariamente uma sensação de controlo ou preparação. No entanto, quando se transforma num processo repetitivo e interminável, deixa de ajudar a resolver problemas e passa a alimentar a própria ansiedade.
Resolver problemas envolve identificar aquilo que está sob o nosso controlo e agir sobre isso. A preocupação excessiva tende a manter a pessoa num ciclo de “e se...?”, sem necessariamente conduzir à ação.
Como se pode manifestar?
A Perturbação de Ansiedade Generalizada envolve pensamentos, emoções, sensações físicas e comportamentos.
Pensamentos
- preocupação constante com o futuro;
- antecipação de acontecimentos negativos;
- dificuldade em tolerar a incerteza;
- necessidade de encontrar respostas para todas as possibilidades;
- pensamentos do tipo “e se...?”;
- dificuldade em desligar das preocupações.
Emoções
- medo;
- apreensão;
- nervosismo;
- irritabilidade;
- sensação de estar constantemente em alerta;
- dificuldade em relaxar.
Corpo
- tensão muscular;
- cansaço;
- inquietação;
- alterações do sono;
- dificuldade de concentração;
- aceleração do ritmo cardíaco;
- desconforto gastrointestinal;
- dores de cabeça ou outras manifestações físicas.
Nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas, e a intensidade pode variar ao longo do tempo. Os sintomas físicos fazem parte da resposta de ansiedade, mas não significam, por si só, que exista uma Perturbação de Ansiedade Generalizada.
A necessidade de ter certezas
Uma das dificuldades frequentemente presentes na ansiedade generalizada é a intolerância à incerteza.
“Vai correr tudo bem?”
“Tenho a certeza de que não aconteceu nada?”
“E se alguma coisa mudar?”
“E se eu tomar a decisão errada?”
Quando sentimos ansiedade, podemos tentar reduzir essa incerteza através de diferentes estratégias:
- pedir repetidamente tranquilização a outras pessoas;
- pesquisar excessivamente na internet;
- verificar várias vezes;
- antecipar todos os cenários possíveis;
- evitar determinadas situações;
- procurar garantias antes de tomar decisões.
Estas estratégias podem proporcionar alívio momentâneo. O problema é que, quando dependemos delas para conseguir sentir-nos seguros, podemos aprender que só conseguimos lidar com uma situação quando temos a certeza de que nada de mau vai acontecer. E essa certeza raramente é possível.
O impacto no dia a dia
Quando a preocupação ocupa demasiado espaço, pode começar a interferir com diferentes áreas da vida.
No trabalho, pode dificultar a concentração, aumentar a necessidade de verificar tarefas ou tornar mais difícil tomar decisões. Nas relações, a necessidade constante de tranquilização pode gerar tensão ou levar a pessoa a esconder aquilo que está a sentir. No descanso, pode ser difícil aproveitar verdadeiramente momentos de lazer porque a mente continua focada no que “é preciso fazer”. E, ao chegar a noite, quando finalmente existe silêncio e menos distrações, as preocupações podem tornar-se ainda mais presentes.
Assim, pode surgir um ciclo:
Ansiedade não é simplesmente “preocupar-se muito”
É importante distinguir uma fase de maior preocupação de uma perturbação de ansiedade. Nem todas as preocupações significam que existe uma Perturbação de Ansiedade Generalizada.
O diagnóstico exige uma avaliação clínica que considere a duração, intensidade e natureza dos sintomas, o sofrimento causado e o impacto no funcionamento da pessoa. É também importante avaliar outras condições que possam estar presentes em simultâneo.
É possível aprender a lidar de outra forma?
A Perturbação de Ansiedade Generalizada é uma condição para a qual existem intervenções psicológicas eficazes.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas recomendadas para a Perturbação de Ansiedade Generalizada.
Na intervenção psicológica, pode ser importante trabalhar, entre outros aspetos:
- a compreensão do ciclo da ansiedade;
- a relação com a preocupação;
- a identificação de padrões de pensamento;
- a tolerância à incerteza;
- estratégias de regulação emocional;
- comportamentos de evitamento e procura de segurança;
- capacidade de permanecer no presente;
- resolução de problemas;
- desenvolvimento de uma relação diferente com pensamentos e emoções.
Abordagens de terceira geração, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e intervenções baseadas em mindfulness, podem também contribuir para trabalhar a relação da pessoa com pensamentos, emoções e experiências internas, dependendo das necessidades individuais e da formulação clínica. A escolha da intervenção deve ser individualizada e baseada numa avaliação adequada.
Quando procurar ajuda?
Pode ser importante procurar apoio psicológico quando a preocupação:
- ocupa grande parte do dia;
- é difícil de controlar;
- interfere com o sono;
- dificulta a concentração;
- afeta o trabalho ou os estudos;
- interfere nas relações;
- conduz a evitamentos frequentes;
- provoca sofrimento significativo;
- ou quando sente que já tentou lidar com tudo sozinho e não está a conseguir.
Não é necessário esperar que se torne insuportável.
Procurar ajuda também pode ser uma forma de começar a recuperar espaço mental.
Não é necessário esperar até que a ansiedade se torne “insuportável” para procurar ajuda. Quanto mais cedo forem identificados os padrões que mantêm a ansiedade, maior pode ser a possibilidade de intervir de forma adequada.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2020). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). NICE.
- Papola, D., Miguel Sanz, C., Mazzaglia, M., Franco, P., Tedeschi, F., Romero, S. A., Patel, A. R., Ostuzzi, G., Gastaldon, C., & Karyotaki, E. (2024). Psychotherapies for generalized anxiety disorder in adults: systematic review and network meta-analysis of randomized-controlled trials. European Psychiatry.
- Alpert, J. E., & Rego, S. A. (2024). Treatment of Generalized Anxiety Disorder. In Anxiety and Depression Association of America Patient Guide to Mood and Anxiety Disorders. American Psychiatric Association Publishing.