Psicologia · Ansiedade

Ansiedade Generalizada

“E se alguma coisa correr mal?”

Mónica Bexiga
Autora do artigo Mónica Bexiga Psicóloga Clínica

“E se eu não conseguir?”

“E se acontecer alguma coisa à minha família?”

“E se me esquecer de alguma coisa importante?”

Preocuparmo-nos faz parte da vida. Todos nós pensamos sobre problemas, antecipamos acontecimentos e tentamos encontrar soluções para situações que nos inquietam.

Mas, para algumas pessoas, a preocupação deixa de ser pontual e passa a ocupar grande parte do dia. Mesmo quando não existe um problema concreto, a mente parece estar constantemente à procura de algo com que se preocupar. É neste contexto que podemos encontrar a Perturbação de Ansiedade Generalizada (PAG).

O que é a Perturbação de Ansiedade Generalizada?

A Perturbação de Ansiedade Generalizada caracteriza-se por uma preocupação excessiva e persistente relativamente a diferentes áreas da vida, como o trabalho, a saúde, a família, as relações, as finanças ou situações do quotidiano.

Uma das características centrais é a dificuldade em controlar a preocupação. A pessoa pode reconhecer que está a preocupar-se demasiado, mas sentir que não consegue simplesmente “parar de pensar”.

De acordo com os critérios clínicos, estas preocupações ocorrem durante a maioria dos dias, por um período de pelo menos seis meses, e estão associadas a sintomas como inquietação, fadiga, dificuldades de concentração, irritabilidade, tensão muscular ou alterações do sono. Para além da presença dos sintomas, é importante considerar o sofrimento causado e o impacto no funcionamento da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).

Quando a preocupação deixa de ser uma preocupação “normal”?

A preocupação pode ter uma função adaptativa. Pode ajudar-nos a antecipar dificuldades ou procurar soluções para um problema. A diferença está, muitas vezes, na forma como nos relacionamos com a preocupação.

Na ansiedade generalizada, a preocupação tende a:

  • surgir de forma frequente e persistente;
  • abranger diferentes áreas da vida;
  • ser difícil de controlar;
  • continuar mesmo quando não existe uma ameaça imediata;
  • levar a pessoa a procurar constantemente certezas e garantias;
  • interferir com o sono, concentração, trabalho ou relações;
  • provocar sofrimento significativo.

“A minha cabeça não pára”

Uma pessoa com Perturbação de Ansiedade Generalizada pode passar grande parte do dia a antecipar possíveis problemas.

Uma preocupação pode levar a outra:

“Tenho uma reunião amanhã.”
↓
“E se me fizerem uma pergunta a que não sei responder?”
↓
“E se acharem que não sou competente?”
↓
“E se isto prejudicar o meu trabalho?”
↓
“E se eu perder o emprego?”
↓
“E como vou conseguir pagar as despesas?”

A preocupação pode começar numa situação concreta e rapidamente generalizar-se para diferentes possibilidades futuras. É como se a mente estivesse permanentemente a tentar responder à pergunta: “Como posso garantir que nada de mau vai acontecer?”. O problema é que, na vida real, essa garantia absoluta não existe.

A preocupação pode dar uma falsa sensação de controlo

Por vezes, preocuparmo-nos parece uma forma de preparação.

“Se pensar em todos os cenários possíveis, estarei preparado.”

“Se antecipar tudo o que pode correr mal, consigo evitar que aconteça.”

“Se continuar a pensar no problema, talvez encontre finalmente uma solução.”

A preocupação pode mesmo transmitir temporariamente uma sensação de controlo ou preparação. No entanto, quando se transforma num processo repetitivo e interminável, deixa de ajudar a resolver problemas e passa a alimentar a própria ansiedade.

Resolver problemas envolve identificar aquilo que está sob o nosso controlo e agir sobre isso. A preocupação excessiva tende a manter a pessoa num ciclo de “e se...?”, sem necessariamente conduzir à ação.

Como se pode manifestar?

A Perturbação de Ansiedade Generalizada envolve pensamentos, emoções, sensações físicas e comportamentos.

Pensamentos

  • preocupação constante com o futuro;
  • antecipação de acontecimentos negativos;
  • dificuldade em tolerar a incerteza;
  • necessidade de encontrar respostas para todas as possibilidades;
  • pensamentos do tipo “e se...?”;
  • dificuldade em desligar das preocupações.

Emoções

  • medo;
  • apreensão;
  • nervosismo;
  • irritabilidade;
  • sensação de estar constantemente em alerta;
  • dificuldade em relaxar.

Corpo

  • tensão muscular;
  • cansaço;
  • inquietação;
  • alterações do sono;
  • dificuldade de concentração;
  • aceleração do ritmo cardíaco;
  • desconforto gastrointestinal;
  • dores de cabeça ou outras manifestações físicas.

Nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas, e a intensidade pode variar ao longo do tempo. Os sintomas físicos fazem parte da resposta de ansiedade, mas não significam, por si só, que exista uma Perturbação de Ansiedade Generalizada.

A necessidade de ter certezas

Uma das dificuldades frequentemente presentes na ansiedade generalizada é a intolerância à incerteza.

“Vai correr tudo bem?”

“Tenho a certeza de que não aconteceu nada?”

“E se alguma coisa mudar?”

“E se eu tomar a decisão errada?”

Quando sentimos ansiedade, podemos tentar reduzir essa incerteza através de diferentes estratégias:

  • pedir repetidamente tranquilização a outras pessoas;
  • pesquisar excessivamente na internet;
  • verificar várias vezes;
  • antecipar todos os cenários possíveis;
  • evitar determinadas situações;
  • procurar garantias antes de tomar decisões.

Estas estratégias podem proporcionar alívio momentâneo. O problema é que, quando dependemos delas para conseguir sentir-nos seguros, podemos aprender que só conseguimos lidar com uma situação quando temos a certeza de que nada de mau vai acontecer. E essa certeza raramente é possível.

O impacto no dia a dia

Quando a preocupação ocupa demasiado espaço, pode começar a interferir com diferentes áreas da vida.

No trabalho, pode dificultar a concentração, aumentar a necessidade de verificar tarefas ou tornar mais difícil tomar decisões. Nas relações, a necessidade constante de tranquilização pode gerar tensão ou levar a pessoa a esconder aquilo que está a sentir. No descanso, pode ser difícil aproveitar verdadeiramente momentos de lazer porque a mente continua focada no que “é preciso fazer”. E, ao chegar a noite, quando finalmente existe silêncio e menos distrações, as preocupações podem tornar-se ainda mais presentes.

Assim, pode surgir um ciclo:

Preocupação → Ansiedade → Procura de segurança →
Alívio temporário → Nova preocupação

Ansiedade não é simplesmente “preocupar-se muito”

É importante distinguir uma fase de maior preocupação de uma perturbação de ansiedade. Nem todas as preocupações significam que existe uma Perturbação de Ansiedade Generalizada.

O diagnóstico exige uma avaliação clínica que considere a duração, intensidade e natureza dos sintomas, o sofrimento causado e o impacto no funcionamento da pessoa. É também importante avaliar outras condições que possam estar presentes em simultâneo.

É possível aprender a lidar de outra forma?

A Perturbação de Ansiedade Generalizada é uma condição para a qual existem intervenções psicológicas eficazes.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas recomendadas para a Perturbação de Ansiedade Generalizada.

Na intervenção psicológica, pode ser importante trabalhar, entre outros aspetos:

  • a compreensão do ciclo da ansiedade;
  • a relação com a preocupação;
  • a identificação de padrões de pensamento;
  • a tolerância à incerteza;
  • estratégias de regulação emocional;
  • comportamentos de evitamento e procura de segurança;
  • capacidade de permanecer no presente;
  • resolução de problemas;
  • desenvolvimento de uma relação diferente com pensamentos e emoções.

Abordagens de terceira geração, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e intervenções baseadas em mindfulness, podem também contribuir para trabalhar a relação da pessoa com pensamentos, emoções e experiências internas, dependendo das necessidades individuais e da formulação clínica. A escolha da intervenção deve ser individualizada e baseada numa avaliação adequada.

Quando procurar ajuda?

Pode ser importante procurar apoio psicológico quando a preocupação:

  • ocupa grande parte do dia;
  • é difícil de controlar;
  • interfere com o sono;
  • dificulta a concentração;
  • afeta o trabalho ou os estudos;
  • interfere nas relações;
  • conduz a evitamentos frequentes;
  • provoca sofrimento significativo;
  • ou quando sente que já tentou lidar com tudo sozinho e não está a conseguir.

Não é necessário esperar que se torne insuportável.

Procurar ajuda também pode ser uma forma de começar a recuperar espaço mental.

  Marcar consulta

Não é necessário esperar até que a ansiedade se torne “insuportável” para procurar ajuda. Quanto mais cedo forem identificados os padrões que mantêm a ansiedade, maior pode ser a possibilidade de intervir de forma adequada.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2020). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). NICE.
  • Papola, D., Miguel Sanz, C., Mazzaglia, M., Franco, P., Tedeschi, F., Romero, S. A., Patel, A. R., Ostuzzi, G., Gastaldon, C., & Karyotaki, E. (2024). Psychotherapies for generalized anxiety disorder in adults: systematic review and network meta-analysis of randomized-controlled trials. European Psychiatry.
  • Alpert, J. E., & Rego, S. A. (2024). Treatment of Generalized Anxiety Disorder. In Anxiety and Depression Association of America Patient Guide to Mood and Anxiety Disorders. American Psychiatric Association Publishing.