Psicologia · Ansiedade Social

Perturbação de Ansiedade Social

“E se me julgarem?”

Mónica Bexiga
Autora do artigo Mónica Bexiga Psicóloga Clínica

“E se acharem que sou ridículo?”

“E se disser alguma coisa errada?”

“E se perceberem que estou nervoso?”

“E se me julgarem?”

“Preferia não ter de falar.”

“Fico a pensar durante horas naquilo que disse.”

Todos podemos sentir algum nervosismo perante situações sociais. Uma apresentação, uma entrevista de emprego, conhecer pessoas novas ou falar com alguém que não conhecemos bem podem provocar ansiedade.

É natural preocuparmo-nos, em alguma medida, com a forma como os outros nos percecionam. Mas e quando esse medo se torna tão intenso que começamos a evitar situações sociais? E quando a possibilidade de sermos avaliados negativamente ocupa demasiado espaço na nossa vida?

É neste contexto que pode surgir a Perturbação de Ansiedade Social (PAS).

O que é a Perturbação de Ansiedade Social?

A Perturbação de Ansiedade Social caracteriza-se por um medo ou ansiedade intensos perante situações sociais em que a pessoa pode ser observada ou avaliada por outras pessoas.

Existe frequentemente receio de agir de determinada forma ou de demonstrar sintomas de ansiedade que possam ser avaliados negativamente.

A pessoa pode temer parecer incompetente, embaraçada, inadequada ou pouco interessante e, por isso, evitar determinadas situações ou suportá-las com grande sofrimento (American Psychiatric Association, 2022).

O medo não está necessariamente relacionado com as pessoas em si. Muitas vezes, está relacionado com aquilo que a pessoa acredita que os outros poderão pensar sobre ela.

O medo de ser avaliado

Uma característica central da ansiedade social é o medo de avaliação negativa. A pessoa pode sentir que está constantemente a ser observada.

“Estão todos a reparar em mim.”

“Devem estar a perceber que estou nervoso.”

“Estão a notar que não sei o que dizer.”

“Devem estar a achar-me estranho.”

Este foco aumentado na forma como estamos a ser percecionados pode fazer com que a atenção se desloque da própria interação para a monitorização de nós mesmos (Clark & Wells, 1995).

Em vez de estar presente na conversa, a pessoa pode estar a observar:

“Como estou a parecer?”

“A minha voz está estranha?”

“Estou a olhar demasiado?”

“Estou a falar depressa?”

“Será que estou a sorrir de forma estranha?”

“E se todos repararem na minha ansiedade?”

Quando estamos ansiosos, podemos apresentar alterações físicas:

  • coração acelerado;
  • transpiração;
  • tremores;
  • tensão muscular;
  • rubor;
  • boca seca;
  • alterações da voz;
  • dificuldade em pensar com clareza;
  • sensação de “branco”;
  • desconforto gastrointestinal.

Para alguém com ansiedade social, estes sintomas podem tornar-se uma segunda fonte de medo. Não é apenas:

“Tenho de falar em público.”

É também:

“E se perceberem que estou nervoso?”

A pessoa pode começar a temer não apenas a situação, mas os próprios sinais de ansiedade (Clark & Wells, 1995).

A ansiedade pode criar um ciclo

Situação social↓ “Vão reparar em mim.”↓ Ansiedade↓ “A minha voz está a tremer.”↓ “Eles vão perceber que estou nervoso.”↓ Mais ansiedade↓ “A minha voz vai tremer ainda mais.”↓ Evitamento ou comportamento de segurança

Este ciclo pode fazer com que a pessoa interprete as próprias reações de ansiedade como confirmação de que a situação é perigosa.

E se evitar for mais fácil?

Evitar pode trazer alívio imediato.

“Não vou à festa.”

“Não vou fazer a apresentação.”

“Não vou levantar a mão.”

“Não vou telefonar.”

“Não vou falar com essa pessoa.”

Naquele momento, a ansiedade diminui. O problema é que o cérebro pode aprender: “Ainda bem que evitei. Aquela situação era perigosa.” Assim, o evitamento pode reforçar o medo.

Quanto mais situações evitamos, menos oportunidades temos de descobrir que aquilo que temíamos poderia não acontecer — ou que, mesmo acontecendo algum desconforto, seríamos capazes de lidar com ele.

Nem sempre evitamos completamente

Por vezes, a pessoa participa nas situações sociais, mas utiliza comportamentos de segurança para tentar evitar uma avaliação negativa:

  • preparar excessivamente aquilo que vai dizer;
  • ensaiar conversas;
  • falar pouco;
  • evitar contacto visual;
  • olhar constantemente para o telemóvel;
  • falar muito depressa;
  • evitar fazer perguntas;
  • escolher lugares onde seja menos visível;
  • beber álcool antes de situações sociais;
  • tentar controlar constantemente os sintomas de ansiedade.

Estes comportamentos podem proporcionar uma sensação de segurança. Mas também podem impedir a pessoa de descobrir aquilo que aconteceria se não os utilizasse.

Os modelos cognitivos da ansiedade social destacam precisamente o papel dos comportamentos de segurança na manutenção do problema (Clark & Wells, 1995; Hofmann, 2007).

E depois da situação?

Para algumas pessoas, a ansiedade não termina quando a situação social acaba. Pode começar uma espécie de análise pós-evento. A pessoa pode passar horas a pensar:

“Porque é que disse aquilo?”

“Será que pareci estúpido?”

“Porque é que fiquei em silêncio?”

“Aquela pessoa olhou para mim de uma maneira estranha.”

“Devia ter respondido de outra forma.”

A interação é revista mentalmente à procura de erros ou sinais de rejeição. Este processo pode aumentar a perceção de que a situação correu mal, mesmo quando não existem evidências claras disso (Clark & Wells, 1995).

“Toda a gente está a olhar para mim”

Quando estamos ansiosos, podemos sentir que somos muito mais observados do que realmente somos. Isto pode acontecer porque a nossa atenção está fortemente direcionada para nós próprios. A pessoa pode construir uma representação interna de como acredita que está a ser vista pelos outros e depois assumir que essa imagem corresponde àquilo que os outros realmente estão a observar (Clark & Wells, 1995).

Por exemplo: “Sinto a minha cara quente, por isso todos devem estar a ver que estou vermelho.” Mas sentir uma reação não significa necessariamente que os outros a estejam a notar. E, mesmo que alguém repare, isso não significa automaticamente que esteja a fazer uma avaliação negativa.

A ansiedade social não é simplesmente timidez

Ser tímido não significa ter Perturbação de Ansiedade Social. Algumas pessoas são naturalmente mais reservadas. Podem preferir grupos pequenos. Podem precisar de algum tempo para se sentirem confortáveis com pessoas novas. Isso não significa necessariamente que exista uma perturbação.

Na ansiedade social, o medo é suficientemente intenso ou persistente para provocar sofrimento significativo, evitamento ou interferência no funcionamento da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).

Pode acontecer na escola ou no trabalho?

A ansiedade social pode interferir com diferentes áreas. A pessoa pode evitar:

  • fazer apresentações;
  • falar em reuniões;
  • participar em entrevistas;
  • pedir ajuda;
  • dar opiniões;
  • falar com colegas ou superiores;
  • fazer telefonemas;
  • participar em eventos profissionais.

Pode ter conhecimentos e competências, mas sentir dificuldade em demonstrá-los devido ao medo de avaliação. Por vezes, pode até recusar oportunidades profissionais para evitar situações sociais que provocam ansiedade.

E nas relações?

A pessoa pode querer aproximar-se de outras pessoas, mas sentir medo de iniciar uma conversa. Pode evitar encontros. Pode ter dificuldade em expressar interesse romântico. Pode sentir medo de ser rejeitada. Pode interpretar pequenas alterações no comportamento dos outros como sinais de desaprovação.

“Quero aproximar-me, mas tenho medo de me aproximar.”

O perfeccionismo pode alimentar a ansiedade social

“Dizer sempre a coisa certa.”

“Nunca parecer inseguras.”

“Nunca cometer erros.”

“Nunca ficar sem palavras.”

“Ser interessantes o suficiente.”

Quando estabelecemos padrões impossivelmente elevados para o nosso desempenho social, qualquer pequeno erro pode parecer uma catástrofe. Assim, a pessoa pode entrar numa situação já convencida de que precisa de desempenhar na perfeição. E essa pressão aumenta a ansiedade.

É possível tratar a Perturbação de Ansiedade Social?

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções psicológicas com maior suporte científico para a Perturbação de Ansiedade Social (NICE, 2013; Mayo-Wilson et al., 2014).

A intervenção pode incluir:

  • compreensão do ciclo da ansiedade social;
  • identificação e avaliação de pensamentos e previsões negativas;
  • redução da auto-monitorização excessiva;
  • trabalho sobre comportamentos de segurança;
  • exposição gradual a situações sociais;
  • experiências comportamentais;
  • desenvolvimento de uma relação mais flexível com a possibilidade de avaliação negativa.

O tratamento é adaptado às necessidades e objetivos de cada pessoa.

Quando procurar ajuda?

Pode ser importante procurar apoio psicológico quando:

  • sente medo intenso de situações sociais;
  • preocupa-se excessivamente com aquilo que os outros pensam;
  • evita falar em público;
  • evita reuniões ou apresentações;
  • tem dificuldade em conhecer pessoas novas;
  • evita telefonemas;
  • sente ansiedade intensa ao comer, escrever ou realizar tarefas perante outras pessoas;
  • passa muito tempo a analisar situações sociais depois de acontecerem;
  • utiliza comportamentos para esconder ou controlar a ansiedade;
  • perdeu oportunidades pessoais ou profissionais por causa deste medo;
  • sente que a sua vida está cada vez mais limitada pelo receio de ser avaliado.

A ansiedade social pode ser tratada. Não é necessário esperar até que o medo desapareça sozinho ou até que o evitamento se torne muito significativo.

O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o funcionamento da ansiedade social, identificar os padrões que a mantêm e desenvolver estratégias adequadas às suas necessidades.

Acompanhamento individualizado

Sente que o medo de ser avaliado está a limitar a sua vida?

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Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • Clark, D. M., & Wells, A. (1995). A cognitive model of social phobia. In R. G. Heimberg, M. Liebowitz, D. Hope, & F. Scheier (Eds.), Social phobia: Diagnosis, assessment, and treatment (pp. 69–93). Guilford Press.
  • Hofmann, S. G. (2007). Cognitive factors that maintain social anxiety disorder: A comprehensive model and its treatment implications. Cognitive Behaviour Therapy, 36(4), 193–209. https://doi.org/10.1080/16506070701421313
  • Mayo-Wilson, E., Dias, S., Mavranezouli, I., Kew, K., Clark, D. M., Ades, A. E., & Pilling, S. (2014). Psychological and pharmacological interventions for social anxiety disorder in adults: A systematic review and network meta-analysis. The Lancet Psychiatry, 1(5), 368–376. https://doi.org/10.1016/S2215-0366(14)70329-3
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2013). Social anxiety disorder: Recognition, assessment and treatment (CG159). NICE.