“E se esta dor significar alguma coisa séria?”
“E se os exames não tiverem detetado alguma coisa?”
“Tenho a certeza de que há alguma coisa errada comigo.”
“Preciso de confirmar mais uma vez.”
“E se desta vez for mesmo uma doença grave?”
Preocuparmo-nos com a nossa saúde é natural. Quando sentimos alguma coisa diferente no corpo, é esperado que procuremos compreender o que está a acontecer. Mas, para algumas pessoas, esta preocupação torna-se persistente, difícil de controlar e começa a ocupar uma parte significativa da vida.
A Perturbação de Ansiedade Relativa à Doença caracteriza-se por uma preocupação intensa com a possibilidade de ter ou vir a ter uma doença grave, mesmo quando os sintomas físicos são inexistentes ou pouco intensos. A pessoa pode interpretar sensações corporais normais ou ligeiras como sinais de doença e procurar repetidamente confirmação ou, pelo contrário, evitar consultas e informações relacionadas com saúde (APA, 2022).
O que é a Perturbação de Ansiedade Relativa à Doença?
A Perturbação de Ansiedade Relativa à Doença integra as perturbações de sintomas somáticos e relacionadas e envolve uma preocupação persistente com ter ou desenvolver uma doença grave.
A pessoa pode estar muito atenta ao próprio corpo, interpretar sensações benignas como sinais de doença e apresentar comportamentos relacionados com a saúde, como verificar frequentemente o corpo, procurar informação na internet ou procurar repetidamente tranquilização.
Noutros casos, pode acontecer exatamente o contrário: a pessoa evita médicos, exames, hospitais ou falar sobre doenças, porque essas situações aumentam a ansiedade (APA, 2022).
E se sentir algo no corpo e imediatamente pensar no pior?
O nosso corpo produz constantemente sensações. Podemos sentir:
- uma pequena dor;
- palpitações;
- tensão muscular;
- tonturas;
- alterações gastrointestinais;
- formigueiros;
- cansaço;
- falta de ar momentânea;
- alterações na temperatura corporal.
A maioria destas sensações não significa que exista uma doença grave. Mas, quando existe ansiedade relativa à doença, uma sensação corporal pode ser interpretada rapidamente como uma ameaça:
A ansiedade aumenta a vigilância. E quanto mais atentos estamos ao corpo, mais sensações tendemos a reparar. Assim, aquilo que começou como uma pequena sensação pode tornar-se cada vez mais evidente.
“Mas eu sinto mesmo alguma coisa…”
As sensações são reais. O que pode estar alterado é a interpretação atribuída a essas sensações e o nível de ameaça que lhes é associado.
Quando existe medo de doença, é natural começar a observar o corpo com maior atenção.
“Será que esta pinta mudou?”
“Será que estou a respirar normalmente?”
“Este gânglio sempre esteve aqui?”
“Porque é que hoje estou tão cansado?”
“Será que o meu coração está a bater demasiado depressa?”
Esta monitorização pode parecer uma tentativa de proteção. Mas quanto mais procuramos sinais, mais encontramos. O corpo não é completamente silencioso. Há sempre pequenas alterações, sensações e irregularidades. Quando a atenção está constantemente direcionada para elas, estas podem tornar-se mais salientes.
E se começar a pesquisar os sintomas?
A internet oferece uma quantidade enorme de informação médica, mas nem sempre ajuda a responder à pergunta que a ansiedade está a colocar:
“Tenho a certeza absoluta de que não é nada grave?”
E essa certeza pode ser impossível de alcançar através de pesquisas. A procura repetida de informação pode funcionar como um comportamento de segurança: reduz temporariamente a ansiedade, mas pode contribuir para manter a preocupação a longo prazo (APA, 2022; Abramowitz & Braddock, 2008).
E se fizer exames repetidamente?
A procura de cuidados médicos não é, por si só, um problema. Consultar profissionais de saúde quando existem sintomas relevantes é importante. A dificuldade surge quando a pessoa procura repetidamente exames ou consultas sobretudo para conseguir aliviar a ansiedade e obter uma certeza que nunca parece suficiente.
Porém, nem todas as pessoas com ansiedade relativa à doença procuram constantemente cuidados médicos. Algumas evitam-nos.
Podem evitar, por exemplo:
- consultas;
- análises;
- hospitais;
- programas de televisão sobre doenças;
- notícias relacionadas com saúde;
- falar sobre sintomas;
- tocar ou observar determinadas partes do corpo.
A curto prazo, evitar pode reduzir a ansiedade. Mas também pode reforçar a ideia de que determinada situação é demasiado ameaçadora para ser enfrentada.
Assim, tanto a procura excessiva de segurança como o evitamento podem contribuir para manter o ciclo da ansiedade.
A ansiedade também pode produzir sensações físicas
A ansiedade também pode produzir alterações físicas reais. Quando o organismo entra num estado de ameaça, podem surgir alterações como aumento da frequência cardíaca, tensão muscular, alterações respiratórias, desconforto gastrointestinal, tonturas ou sensação de falta de ar. Estas respostas fazem parte do funcionamento normal do organismo perante uma ameaça percebida.
O problema surge quando essas sensações são interpretadas como prova de uma doença grave. Em alguns casos, o ciclo pode ser:
A ansiedade passa, assim, a produzir mais motivos para a própria ansiedade.
A preocupação com a doença pode ocupar muito espaço
Pode começar a afetar:
- o trabalho;
- o sono;
- as relações;
- os momentos de lazer;
- a capacidade de concentração;
- a relação com o próprio corpo.
A ansiedade relativa à doença pode criar uma necessidade intensa de controlo.
“Tenho de reparar em tudo.”
“Tenho de conhecer todos os sintomas.”
“Tenho de fazer todos os exames.”
“Tenho de perceber exatamente o que se passa.”
É possível quebrar este ciclo?
A intervenção psicológica pode ajudar a compreender os mecanismos que mantêm a ansiedade e a desenvolver novas formas de responder às preocupações.
A Terapia Cognitivo-Comportamental apresenta evidência para o tratamento da ansiedade relacionada com a saúde e das perturbações de sintomas somáticos e relacionadas (Hedman et al., 2014; NICE, 2024).
O trabalho pode incluir:
- identificar interpretações catastróficas relacionadas com sintomas;
- compreender o ciclo entre sensação, pensamento, emoção e comportamento;
- reduzir gradualmente comportamentos de verificação;
- trabalhar a procura excessiva de tranquilização;
- diminuir pesquisas repetidas sobre sintomas;
- trabalhar o evitamento;
- desenvolver tolerância à incerteza;
- aprender a relacionar-se de forma diferente com pensamentos ameaçadores.
Em abordagens de terceira geração, pode também ser útil trabalhar a relação com os próprios pensamentos, promovendo maior flexibilidade psicológica e capacidade de agir de acordo com aquilo que é importante, mesmo quando existe alguma incerteza (Hayes et al., 2012).
O medo de adoecer é humano. Mas quando esse medo começa a controlar os pensamentos, os comportamentos e as escolhas, pode ser importante procurar ajuda.
Acompanhamento individualizado
A preocupação com a saúde está a ocupar demasiado espaço na sua vida?
Referências
- Abramowitz, J. S., & Braddock, A. E. (2008). Psychological treatment of health anxiety and hypochondriasis: A biopsychosocial approach. Hogrefe & Huber.
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
- Hedman, E., Axelsson, E., Andersson, G., Lekander, M., & Ljótsson, B. (2014). Exposure-based cognitive-behavioural therapy via the internet and as bibliotherapy for somatic symptom disorder and illness anxiety disorder: Randomised controlled trial. British Journal of Psychiatry, 205(4), 307–314. https://doi.org/10.1192/bjp.bp.113.138958
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2024). Somatic symptoms and related disorders: Recognition and management. NICE.
- World Health Organization. (2022). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). World Health Organization.